Wednesday, June 08, 2005

Páscoa em Família

Já havia muito tempo que Michel não planeava um fim de semana daquela maneira. Primeiro porque ainda estava a pagar o carro e via-se sempre obrigado a fazer horas extraordinárias. Depois, e principalmente, porque não era sempre possível conciliar os seus planos com os da ex-mulher, o que praticamente o impossibilitva de se afastar com a filha mais de cinquenta quilómetros da cidade. Mas agora, depois de muitos fracassos, conseguiam chegar a um acordo. Magda e o marido, o Ferraz, iam para a costa alentejana no fim de semana da Páscoa e levavam a Catarina. Michel, que vinha do Algarve, ia ter com eles ao apartamento e depois faziam a festa todos juntos. Havia de ser muito divertido e saudável para a pequena ver o pai, a mãe e o padrasto de boas relações e ele também não se ralava nada. Em boa verdade até lhe pacificava a alma constatar que a ex-mulher amava o Ferraz e este lhe retribuía.
Mas como parece constatar-se a existência de uma omnipresente lei universal que tem como única função ser um contrapeso em tudo o que devia correr bem, as coisas começaram logo a correr mal, ainda na quinta-feira. Quinta Feira Santa, porque nesse dia tinham levado Cristo para a cruz. Quando Michel quis telefonar para Magda a confirmar a hora do encontro, ficou sem bateria no telemóvel e quando ligou de uma cabine ouviu a voz dela gravada no atendedor personalizado. E em casa também ninguém levantou o auscultador. Restava ainda mais uma última hipótese que era o telefone do Ferraz, mas não lhe agradava e não o fez. “Deixa lá, também não preciso andar sempre a incomodar.” Michel tinha consciência de que o entusiasmo com os preparativos já servira de pretexto para lhes telefonar repetidas vezes, e que provavelmente desta eles resolveram não lhe dar conversa. E convenceu-se disso. Michel já não ia à Lagoa de Santo André desde que conhecera a Magda, num restaurante que lá existia chamado Espreita-o-Mar. Agora esse restaurante já lá não estava. Tinham-no demolido e no espaço que antes ocupara pairava uma espécie de fantasma que só era visível aos olhos de quem o conhecera. Como se o ar ficasse menos denso ao atravessar aqueles metros quadrados de areia.
O apartamento que a família da filha alugara para aquele fim de semana prolongado ficava ainda a um bom quilómetro da praia, mas como era no terceiro andar, da varanda podia desfrutar-se o azul do Atlântico. Perfeito para os planos, pelo menos os dele, não fosse o azar do dia anterior ter transitado para a sexta-feira, dia da morte de Jesus. A coisa começou logo a não agradar, por não ouvir o mais ínfimo som do outro lado da porta, a voz da Catarina, do Ferraz ou o ruído das panelas e dos tachos... Nada, nem o raio daquela vibração audível que todas as televisões emitem, mesmo sem som e que nem toda a gente consegue ouvir. E pronto, podia ter ali ficado desde as sete da tarde até à meia-noite que ninguém lhe teria vindo abrir a porta. Teve ainda paciência para dar uma volta ao edifício para constatar que todas as luzes estavam apagadas e foi até ao café mais próximo beber uma cerveja. Começava a ficar sem humor.
Somando os telefonemas não atendidos com a presente situação, não seria necessário ser-se céptico em demasia para suspeitar de que tinha sido um perfeito idiota. Um fim de semana prolongado com a filha, a ex-mulher e o marido dela, onde é que já se viu! Mas Michel acreditava ter razões para não dar de imediato por certa essa suspeita, apesar de ter as suas reservas. “Devem ter-se atrasado. Na verdade, nestes dias, deve ser bem mais difícil vir de Lisboa para cá do que de onde eu vim”. Podia ter feito uma simples chamada e tudo teria ficado bastante mais simples, evitando a torrente de conjecturas que sintetizava a cada momento. Mas Michel tinha o seu orgulho. E se podia telefonar-lhes, eles tinham essa obrigação para com ele.
A televisão deu as oito horas na abertura do telejornal e ele ali estava, já na quarta imperial, a roer uns coiratos. Depois mandou vir um pacote de batatas fritas e foi dar uma volta pela praia. Ainda ia a tempo de ver o pôr do sol.

Tuesday, June 07, 2005

Os Últimos Dias de Kattra

No pleno do Vale de Lkamk’la, na Clareira dos Castanheiros d’Água, tinha lugar a pacata aldeia de Kattra. Os seus habitantes, gente simples e de bom testemunho, viviam desafogadamente da colheita do mel das abelhas da Gruta dos Cristais, que se realizava uma vez em cada ano, por ocasião do eclipse. O resto do tempo era passado a escutar os documentos e parábolas dos anciãos e a preparar as Festas do Arco-íris. Mas o povo kattraio conheceu os seus primeiros receios quando, às vésperas da anunciação dos eleitos ao Favo do Ano, o mago Thakaar, autoridade nas coisas das ciência e do espiritual, fez uma revelação terrível. Como não se recordavam de ter visto em tempo algum, o velho das barbas escarlates precipitou-se em alvoroço do seu colmado e atravessou a aldeia numa correria insana, tomando a direcção do Praça do Meio. Em tumulto ficaram os infantes, quando para ele se dirigiram para receber a Castanha, sendo inesperadamente ignorados, como seres de ar! Correram em alarme para as suas cabanas, tomados de pavor e humilhação. «Que mau alento vos possui, Thakaar?!» - Gritou-lhe Nomfutticap, o Tesoureiro Mor da comunidade. «Tendes justificação para o Vosso comportamento? Que vou dizer aos pais dos infantes?!» O mago agarrou a túnica do Tesoureiro e arrastou-o em silêncio para longe dos olhares de quem estava por perto. Thakaar era fluente em esboçar expressões de teatro mudo de aldeia, mas Nomfutticap apercebeu-se de que o mago não estava representar, como fazia nos serões dos mistérios. Com um gesto de mão, delegou-lhe o direito de se exprimir. Thakaar não entrou em circunlóquios, como era seu apanágio. Apenas abriu o alforge e exibiu uma asa de abelha, que desdobrou em quatro vezes. Era uma carta celeste, decalcada do Livro dos Cometas, e em que escrevinhara uma dúzia de frenéticos aritmogramas. «Este ano...este ano não haverá eclipse!»